Para sempre




No dia em que o cão Gastão morreu, sentei-me num banco de jardim a chorar.

Devia estar a chorar tanto que uma senhora sentou-se ao meu lado e ofereceu-me uma bolacha de chocolate que tirou da carteira dela. Uma daquelas bolachinhas embrulhadas em prata que vêm nas caixas de bolachas que só há em casa das avós.

Perguntou -me depois 'se o cão que chorava sabia que eu gostava tanto dele.' Confirmei, entre lágrimas e sorrisos. Comi a bolacha, dei-lhe um abraço e segui.

Eu gosto muito de escrever sobre as mesmas coisas. Há muitos anos vi um filme muito bonito que se chama 'In the mood for love'. É uma história de uma mulher e de um homem que se amam mas que acabam por nunca consumar ou sequer dizer o amor. Ele passa por ela, ela num vestido lindo de chinesa, há uma pausa, um olhar, acho, e a mim apetece-me amachucá-lo e dizer-lhe para lho dizer. Foda-se, diz-lhe.

Num dos contos do Herberto Hélder, 'Passos em Volta', as vozes de uma puta e do seu cliente dizem-nos o mesmo. Que ele gosta dela e ela gosta dele mas que não vale a pena falar sobre isso porque não. Ou por isto ou por aquilo. E lá estou eu a ler o livro e a dizer-lhe a ele para lhe dizer a ela ou então que diga ela, que as mulheres são mais fortes e ser puta não é vida para ninguém.

Eu ando sempre com os meus mortos todos atrás e com as palavras penduradas. As ditas e as por dizer. Há, entre os meus mortos, aqueles a quem disse tudo e aqueles que se me morreram sem que a urgência da palavra tivesse rompido, entre um beijo e outro de despedida, uma promessa de um café.

Eu escrevi num caderno aquilo que me dizem que inevitavelmente esquecerei sobre os meus mortos, o sorriso do Gonçalo, os abraços do Agostinho, as mãos do avô (o cheiro e a gargalhada), a improvável cara de seriedade do Bernardo quando a vida o impunha, a rouquidão solitária do Tio Augusto, a timidez disfarçada do Tio Topê e ando assim, com os meus mortos e com o caderno atrás. São mais do que estes, os meus mortos não cabem num texto só.

Só se percebe a urgência de dizer 'Amo -te' quando já não é possível dizer outra vez. Que aprendizagem mais brutal e descabida. Depois da morte dos nossos mortos, queremos respirar e com a dor não conseguimos e só pensamos no momento em que devíamos ter dito e não dissemos, como naquele outro filme de dois amantes em Paris: num barco a passear pelo Sena, há um momento em que o sol por momentos se descobre e é preciso dizer 'Amo -te' senão a outra pessoa vai seguir (como eu depois de ter comido a bolacha no banco de jardim).

A nuvem passa. O segundo termina. As palavras não saem. Um instante que podia mudar tudo. Um instante, uma palavra, uma vida. Que brutalidade.

E lá estava eu, afundada na cadeira do cinema a vociferar na escuridão:

'Foda-se! Diz -lhe que gostas dela.'

Para sempre, como na música dos 'Xutos e Pontapés'. Como no romance do Virgílio Ferreira.

Para sempre. Diz -lhe agora.

Fonte: Capazes

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