O amor no dia-a-dia
Seis da manhã, o despertador alto e o teu roncar ao lado, apanhar a roupa do estendal, dobrá-la a correr, colocá-la na bacia, ligar o ferro de engomar, correr para a casa de banho num instante, regressar à sala, passar a tua camisa, hoje é a verde, fica-te tão bem com as calças escuras que te ofereci no Natal, dar o primeiro toque nos miúdos,
tem de ser, vá, toca a levantar,
a cozinha por arrumar desde ontem à noite, preparar já o pequeno-almoço de toda a gente, o meu é o pão com manteiga a caminho do trabalho, o teu despertador já tocou mas calaste-o e viraste-te para o outro lado, fazes bem, precisas de descansar, os miúdos também ainda não se levantaram, já passa das sete e meia e não posso deixar passar mais tempo,
só mais um bocadinho, por favor, só mais um bocadinho,
mas não pode ser, há que levantá-los à força, vestir-me também eu num instante, hoje há tanto para fazer lá no escritório, entretanto já te levantaste, tens o ar carrancudo de sempre, e eu amo-te mesmo assim,
bom dia, dormiste bem?,
nem uma resposta como sempre, faz parte de ti e de nós, não faço questão de mudar o que de alguma forma nos sustenta, os miúdos tomam o pequeno-almoço à pressa, o autocarro está quase a passar na rua, quando formos ricos vou poder levá-los à escola, dar-lhe os beijos todos que queria dar-lhes, às vezes à noite acordo para isso, para lhes dar os beijos que durante o dia não tive tempo de dar,
até logo, portem-se bem, sim?,
e no fundo o que quero dizer-lhes com isto é para me perdoarem por não ser o que eles queriam que eu fosse, o que eu queria ser, raios me partam se um dia não serei capaz de tudo o que quero fazer, para já tenho de me despedir de ti,
amo-te, amo-te, amo-te,
hoje disse-to três vezes, há manhãs em que são mais de três, depende do meu grau de culpa, do meu grau de insuficiência, do espaço que me falta ocupar por dentro do que sinto,
tens a roupa passada na mesa da sala, não te esqueças,
tens a roupa passada na mesa da sala, não te esqueças,
o teu acenar silencioso basta-me, é o acenar mais apaixonado do mundo, tenho a certeza, lá fora a rua cheia, as pessoas cheias, a pressa, parece que vai chover e só agora, que já estou a entrar no metro, é que me lembrei disso e não trouxe guarda-chuva, pode ser que tenha sorte e afinal não chova,
raios,
não tive sorte, chove a rodos e vou ter de correr, são quinhentos metros da saída do metro até à porta do escritório,
raios,
chego com mais três ou quatro quilos embebidos na roupa, ainda esboço um sorriso porque sorrir faz bem, mas não tenho para quem sorrir porque ainda não chegou ninguém, dois minutos depois chega o Faria dos Recursos Humanos com aquela cara fechada de sempre,
bom dia,
e ele, claro, não responde porque nem sequer me ouve, até que finalmente toca o meu telemóvel e vejo o teu número,
amo-te,
dizes-me simplesmente, e eu sei assim, tão simplesmente, que és a melhor mulher do mundo, e que se eu não sou o marido e a pessoa mais feliz que a Terra conheceu estou lá perto, ninguém tenha dúvidas sobre isso.
amo-te,
dizes-me simplesmente, e eu sei assim, tão simplesmente, que és a melhor mulher do mundo, e que se eu não sou o marido e a pessoa mais feliz que a Terra conheceu estou lá perto, ninguém tenha dúvidas sobre isso.
Autor Pedro Chagas Freitas, in Prometo Amar

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