Não te posso amar mais
Sou incapaz do satisfatório. Sou viciado no excessivo. No que nos leva o chão e nos deixa assim: perdidos de bom ou perdidos de mau. Se é razoável não me serve, se é suportável mata.
Viver é excessivo ou então é incompleto.
O problema em ser viciado no excesso é a falta, cada vez maior, de excessos. Há uma crise de excessos e uma abundância do que é certinho. Pior ainda: há uma mania, crescente, de atacar o que sai dos limites. Que tristeza.
Se não sai dos limites é limitado: que dificuldade tem entender isto?
Hoje senti que nos falta algo – e percebi, logo aí, que nos falta tudo. Perdoa-me a minha exigência, mas não consigo amar o que não é supremo, o que não me ocupa, o que não me tira do sítio. Ninguém merece ficar no que o satisfaz – no que apenas o satisfaz. O satisfatório não me satisfaz; o satisfatório não deveria satisfazer ninguém.
Antes um momento de euforia do que uma vida de satisfação.
Vai doer. Eu sei que vai doer. Vai custar. Custa sempre despregar do que satisfaz. Sentimo-nos perdidos, incapazes, apeados de uma segurança que nos vicia. Somos todos viciados no satisfatório, no mais-do-mesmo. Somos todos viciados no que nos equilibra. Mas o equilíbrio é banha da cobra, aprendi há muito.
O inesquecível nunca é equilibrado.
O equilíbrio que se dane. E é por isso que o importa nesta vida é que nos desequilibra: uma paixão, um toque, uma mudança, uma decisão, um desafio, um mistério, um fascínio. O que nos tira de nós é o que nos desequilibra de nós: o que nos liberta do comedimento. Nunca o comedimento mudou o mundo. Coitado de quem sempre se conteve. Desgraçado de quem se contenta.
O mais incrível no mundo é existirem sempre novas maneiras de nos contentarmos.
Não estou, em nós, contentado. Sinto que fomos longe demais quando insistimos. Já há muito que somos apenas satisfatórios – um casal que se entende, um casal que partilha, um casal que se compreende. E ainda assim a milhas de ser aquilo que, para mim, também tem de ser um casal: ebulição, surpresa, magnetismo, sedução, inquietação, alvoroço.
Dá-me paz mas nunca abdiques de me desassossegar.
Hoje percebi que já fomos o que tanto queríamos ser. E ficou lá, inesquecível, a equilibrar-nos agora. Mas há muito tempo que só vivemos o que esqueceremos. É nessas alturas que a teimosia se deve esquecer. Amar-te foi bom enquanto durou, apesar de ainda te amar. Mas o que não amo, o que nunca suportarei amar, é o que não me faz o sangue correr mais depressa, as veias saltar, as pernas tremer, o mundo mudar.
Um amor ou serve para mudar o mundo ou não serve para nada.
Fui teu. Absolutamente teu. Inteiramente teu. Inesquecivelmente teu. Irrepetivelmente teu. Avassaladoramente teu. Ninguém nos tirará o que vivemos, que fique isso sempre bem claro. Mas é tempo de procurar, outra vez tempo de procurar. Procurar ressuscitar, nascer de novo, talvez. Não porque não te suporte, apenas porque nos suportamos demais. E se há excesso que não tolero é esse: o daquilo que suportamos para nos aguentarmos.
Aguento tudo menos o suportável: antes o quase-caos do que o quase-tédio.
Quando leres estas palavras não penses que não te amo. Amo-te. E é por isso que não te posso amar mais.
Autor Pedro Chagas Freitas in 'Prometo Amar'

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